José Carlos Fineis é produtor de vídeo e assessor técnico da Fundação Ubaldino do Amaral/Jornal Cruzeiro do Sul
zefineis@globo.com

 

“Nilson Lombardi projetou o nome de Sorocaba no universo da música erudita mundial, com criações originais e inspiradas. Nada mais justo do que retribuir esse presente”

Não se pode afirmar que Sorocaba tenha sido ingrata com o compositor, maestro e professor Nilson Lombardi, falecido anteontem, aos 82 anos, na Santa Casa local. Ao contrário de outros gênios da música que só tiveram seu valor reconhecido postumamente - e, com toda certeza, este é um caso de genialidade -, Nilson desfrutou, ao longo de sua existência, da reputação de ser o nome mais expressivo da arte musical de que a cidade jamais foi berço.

Tema de dois documentários em vídeo e do livro Nilson Lombardi, obra completa, organizado pela cantora Márcia Mah com patrocínio da Lei de Incentivo à Cultura (em que foram reunidas as partituras de todas as suas composições), foi o primeiro sorocabano agraciado com um site sobre sua vida e obra na internet, em 1997, e, até hoje, é um dos poucos (descontados os políticos, que ali estão por outros motivos) a merecer tal honraria, através do portal www.nilsonlombardi.com.br.

Para esta figura amável e brincalhona de 1,82 m, tão importante quanto as homenagens era o carinho com que era recebido em todos os lugares, aliado à satisfação de ter suas composições lembradas por instrumentistas daqui e de fora, como a pianista Lúcia Helena Bismara, que contribuiu fortemente para divulgar sua obra entre seus conterrâneos, e concertistas internacionais do porte de Eudóxia de Barros, Attílio Mastrogiovanni, Eny da Rocha e Fábio Luz.

Se é verdade que, para um compositor, a melhor homenagem é saber que suas obras são ouvidas e executadas, Nilson Lombardi teve uma vida feliz. Mesmo no circuito restrito da música erudita, era constantemente lembrado. Em 2004, sua Cantilena nº 1 foi incluída no CD São Paulo e seus compositores da pianista Marina Brandão; em 2007, suas miniaturas foram tema da dissertação de mestrado de Juliano B. Kerber no Instituto de Artes da Unesp. Mas talvez a prova maior da perenidade de sua música esteja no YouTube, o site de vídeos mais popular da internet, onde jovens instrumentistas interpretam, em vídeos caseiros, as miniaturas do sorocabano.

Apesar da reverência e do carinho que lhe eram devotados, fica sempre a sensação, diante da grandeza do trabalho realizado por Lombardi, de que ele merecia um olhar mais atento de seus concidadãos, especialmente daqueles dotados de conhecimentos para avaliar a qualidade de suas composições e, numa visão bem bairrista, perceber o que isso representou para a cidade.

Nilson Lombardi projetou o nome de Sorocaba no universo da música erudita mundial, com criações originais e inspiradas. Suas vitórias pessoais, como o Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2001, também pertencem, num sentido muito especial, à cidade que o viu crescer e onde aprendeu os primeiros acordes.

Nada mais justo do que retribuir esse presente, eternizando suas composições no repertório dos grupos instrumentais locais, e seu nome em algo relacionado a sua vida e sua paixão pela música. Uma sugestão bastante apropriada é torná-lo patrono do Instituto Municipal de Música de Sorocaba (mantido pela Fundec, em parceria com a Prefeitura), que, por sinal, completará dez anos de funcionamento no próximo mês de agosto.

Para alguém como Nilson, que foi aluno durante boa parte da vida adulta (tinha 29 anos quando se fez discípulo de Camargo Guarnieri), tornando-se posteriormente professor de música na rede estadual de ensino e no Instituto de Artes da Unesp, ter seu nome associado a uma instituição de ensino musical seria uma bela homenagem.

Mais bela ainda, quando se imagina que, entre os jovens alunos do instituto, possa estar um novo Nilson Lombardi, a quem o exemplo de vida e os acordes sublimes do velho mestre despertarão.

Editorial publicado na edição de 11/04/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, de José Carlos Fineis
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Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990

Nilson Lombardi

Leio no “Estado” que o compositor Nilson Lombardi morreu nesta quarta-feira, aos 82 em anos, em Sorocaba. Foi aluno de Camargo Guarnieri durante quinze anos, e suas composições são fortemente influenciadas pelo mestre nacionalista.

O único disco que tenho dele é um LP de 1976, do selo Fermata, intitulado “Attilio Mastrogiovanni interpreta Nilson Lombardi”, com várias de suas composições para piano. Os “Dez Ponteios” não poderiam ser mais guarnierianos, e por isso mesmo sempre gostei muito de ouvi-los.

Um mesmo desenho de melodia, uma mesma figura de acompanhamento, e em vez de monotonia, a sensação de que nunca se sabe para onde a música vai: é que as harmonias vão ficando cada vez mais estranhas, mais evasivas, mais carregadas de interrogações. Não que com isso comecem a ferir demais os ouvidos; a suavidade, certo charme hipnótico, persistem, numa espécie de dança de não sei quantos véus.

A descrição serve, acho, tanto para as peças moderadas e seresteiras quanto para as tensas corridas de síncopes e desencontros que marcam os ponteios mais difíceis. Em tudo, um diabo de contraponto –tome-se o de número 5, “Com enlevo”—em que cada mão parece ter de se destroncar do pulso para seguir os caminhos que se entortam e bifurcam das melodias justapostas.

Como na música de Camargo Guarnieri, há aqui um Brasil bem bonito de se ouvir: um ideal de refinamento que não abandona a simplicidade, sempre sóbrio como as linhas de Brasília, mas intenso de sentimentos; só que o sentimento não se derrama em gritaria e tropicalidade; está ali, sofrido, como nas árvores do cerrado, que se retorcem, florescem e se calam. Nilson Lombardi, como Camargo Guarnieri e aquela escola de interpretar o Brasil, calaram-se também

Marcelo Coelho nasceu em 1959, é membro do Conselho Editorial da "Folha" e escreve semanalmente na "Ilustrada" desde 1990.

Publicado em seu blog http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/ em 11/04/2008
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Luis Roberto Trench é Crítico, Musicólogo, Conferencista e Jornalista. Membro Catedrático da Academia Internacional de Música é correspondente da UNESCO e Titular da Internacional Society for Contemporary Music de Londres. Membro da Sociedade Brasileira de Musicologia e Presidente do Júri de Música Erudita da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), é integrante do corpo de consultores de cultura do Governo do Estado de São Paulo (Consultor do Prêmio Carlos Gomes). Ex-Crítico da Folha da Tarde (SP) e do Correio Popular, escreve também para o jornal alemão BRASIL POST.

Falece Nílson Lombardi, o “Schumann brasileiro”

Faleceu em Sorocaba, aos 82 anos, um de nossos maiores poetas da composição para piano, o maestro Nilson Lombardi. Nascido em 1926 na mesma e tradicional cidade do interior paulista, Nilson fez seus primeiros estudos musicais com Sofia Helena de Oliveira, da escola Luigi Chiafarelli. Formado pelo instituto Musical de São Paulo, na capital, o compositor entrou para a escola de composição particular do grande Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993) vindo a se tornar um de seus principais discípulos e dentre estes, um dos mais talentosos. Foi Delegado Regional de Cultura da cidade de Sorocaba, Professor titular de Composição e análise da UNESP - Universidade Estadual de São Paulo e membro da Diretoria do Centro de Música Brasileira, entidade presidida por Osvaldo Lacerda e pela pianista Eudóxia de Barros.

Grande amigo dos amigos, homem de excepcional sensibilidade e grande espiritualidade, meu querido amigo pessoal era muito bem quisto tanto em Sorocaba como em São Paulo, mas poderia ter sido mais tocado, tanto em São Paulo, como no Rio de Janeiro, já que suas obras foram executadas com ótimas críticas em países como Estados Unidos, Japão, França, Inglaterra e Itália. Na Espanha, o famoso compositor Federico Mompeau o tinha em grande consideração.

Foi considerado pelo Historiador e Embaixador Vasco Mariz verdadeiro continuador de Guarnieri (História da Música no Brasil, 5º e 6º edições). Grande Prêmio da Crítica pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, verbete em diversas enciclopédias (inclusive na espanhola SALVAT), Nilson Lombardi deixa uma obra sofisticada e de primeiríssima categoria, principalmente para o piano, do qual foi poeta e cantor, expressando um nacionalismo requintado e sutil, e com poder de penetração universal, foi o verdadeiro “Schumann” brasileiro. Uma de suas composições “Para Luiza” foi usada em uma novela da Rede Globo de televisão.

Matéria publicada na edição de 15/04/2008 do jornal O DIA de Luis Roberto Trench

E-mail – lrtrench@hotmail.com
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